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A Barriguda

Aqui, em 23 de outubro de 2019, iniciamos uma série, contando histórias que vivi ou conheci, sobre música, artistas, cultura, personalidades em Botucatu e ligados a minha trajetória de vida e arte. Visite a seção especial Memória, para consulta desses materiais. Boas leituras!

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Era novembro de 1.989 e eu estava no saguão de um hotel, em Pato Branco/PR, afinando a viola. Terminando de afinar corri o dedo nas cordas e o som mágico encheu o salão. Chegou um moço - éramos todos moços naquela época - com ares de surpresa dizendo: nossa, que instrumento é esse? Não me estranhou o fato dele não estar familiarizado com o instrumento, já apontamos aqui, em outros textos, um período de ostracismo pelo qual a viola passou. Expliquei, mostrei, toquei um pouco, deixei ele segurar, tocar sentir o som. Esse moço era o Sérgio Torrente, artista na expressão da palavra, e nascia ali uma amizade duradoura. Estávamos, eu e o saudoso João Aiz, em um festival de música na cidade e descobrimos que o Sérgio era de Paranavaí/PR, coincidentemente nossa próxima parada para o FEMUP, um dos mais antigos festivais que ainda acontecem anualmente no Brasil. Prosa que vai, prosa que vem, viola que canta e surgiu o convite para ao invés de voltarmos a Botucatu seguir dali diretamente para Paranavaí, o que dava seguramente uma economia de mais de mil quilômetros de estrada. Torrente cuidou de nos acolher na cidade com quase uma semana de antecedência. Eu e o João aproveitamos e ainda fizemos um breve passeio por Foz do Iguaçu. Seguimos para Paranavaí onde ficamos, em ritmo de férias por alguns dias. Algumas cantorias, bons encontros, conhecendo pessoas e o João, invariavelmente jogando no bicho e curiosamente ganhando rotineiramente naqueles dias. O FEMUP foi um dos festivais mais interessantes dos quais já participei. A cidade vivia o clima do evento. O festival reunia música, poesia, contos e a imprescindível performance dos declamadores locais. Entre uma música e outra, a poesia ganhava o palco na voz de intérpretes, artistas da expressão da palavra - me parece que já disse algo parecido hoje… Mas o mais apaixonante em Paranavaí eram, e ainda são, as Barrigudas. Barriguda é o apelido carinhoso do troféu do festival. Uma escultura, fundida, com a imagem de uma índia grávida, tendo entre os pés um livro aberto e segurando com as duas mãos, acima da cabeça, uma viola. Depois de tudo ainda tinha a festa, uma grande confraria com a galinhada na mesa e a cerveja gelada. Essa é uma parte de muitas histórias que me ligam com Paranavaí, foi meu primeiro ano lá, o meu primeiro FEMUP. Não trouxe o troféu, mas trouxe uma baita vontade de ter uma dessas Barrigudas para adornar minha estante e minha história musical.

Osni Ribeiro - músico e compositor.