19/12/2019

A Barriguda

Era novembro de 1.989 e eu estava no saguão de um hotel, em Pato Branco/PR, afinando a viola. Terminando de afinar corri o dedo nas cordas e o som mágico encheu o salão. Chegou um moço – éramos todos moços naquela época – com ares de surpresa dizendo: nossa, que instrumento é esse? Não me estranhou o fato dele não estar familiarizado com o instrumento, já apontamos aqui, em outros textos, um período de ostracismo pelo qual a viola passou. Expliquei, mostrei, toquei um pouco, deixei ele segurar, tocar sentir o som. Esse moço era o Sérgio Torrente, artista na expressão da palavra, e nascia ali uma amizade duradoura. 

Estávamos, eu e o saudoso João Aiz, em um festival de música na cidade e descobrimos que o Sérgio era de Paranavaí/PR, coincidentemente nossa próxima parada para o FEMUP, um dos mais antigos festivais que ainda acontecem anualmente no Brasil. Prosa que vai, prosa que vem, viola que canta e surgiu o convite para ao invés de voltarmos a Botucatu seguir dali diretamente para Paranavaí, o que dava seguramente uma economia de mais de mil quilômetros de estrada. Torrente cuidou de nos acolher na cidade com quase uma semana de antecedência. 

Eu e o João aproveitamos e ainda fizemos um breve passeio por Foz do Iguaçu. Seguimos para Paranavaí onde ficamos, em ritmo de férias por alguns dias. Algumas cantorias, bons encontros, conhecendo pessoas e o João, invariavelmente jogando no bicho e curiosamente ganhando rotineiramente naqueles dias.

O FEMUP foi um dos festivais mais interessantes dos quais já participei. A cidade vivia o clima do evento. O festival reunia música, poesia, contos e a imprescindível performance dos declamadores locais. Entre uma música e outra, a poesia ganhava o palco na voz de intérpretes, artistas da expressão da palavra – me parece que já disse algo parecido hoje…
Mas o mais apaixonante em Paranavaí eram, e ainda são, as Barrigudas. Barriguda é o apelido carinhoso do troféu do festival. Uma escultura, fundida, com a imagem de uma índia grávida, tendo entre os pés um livro aberto e segurando com as duas mãos, acima da cabeça, uma viola.
Depois de tudo ainda tinha a festa, uma grande confraria com a galinhada na mesa e a cerveja gelada.

Essa é uma parte de muitas histórias que me ligam com Paranavaí, foi meu primeiro ano lá, o meu primeiro FEMUP. Não trouxe o troféu, mas trouxe uma baita vontade de ter uma dessas Barrigudas para adornar minha estante e minha história musical.

12/12/2019

A Escolha

O primeiro instrumento que tive que se parecia com uma viola foi uma craviola, que na verdade é uma estilização do violão, projetada pelo violonista Paulinho Nogueira, desenvolvida e fabricada pela Gianinni. O instrumento em questão tinha doze cordas, o que deixava a sonoridade semelhante a da viola, mas alguma coisa ainda estava faltando. 

Um tempo depois troquei essa Craviola por uma viola Tonante, que um amigo trouxe de São Paulo. Essa Tonante era ruim demais, estava mais pra Berimbau do que pra viola e assim passei pra frente quando ganhei uma outra da Vó, uma violinha da marca Rei dos Violões. Encomendada na Selaria São José, levou meses pra chegar. Era uma viola daquelas de capa de disco de dupla caipira, alaranjada e enfeitada com umas rajadas multicores. Era bem melhor do que a Tonante e até já parecia que eu tinha uma viola. Depois de um tempo, lixei ela, tirei a pintura laranja e fiz, eu mesmo um verniz com goma laca, aplicado com “boneca” conforme meu avô me ensinou. 

Estava até feliz com a violinha. Nessa época dava aulas de violão em casa. Muitos alunos e amigos se encantaram pela violao, querendo tocar e aprender. Conforme as violas foram aparecendo eu fui passando também o pouco que eu sabia. Um desses amigos, o Sílvio Cassetari, que já dominava bem o violão e era inclinado também na cantoria apareceu em casa um dia, pedindo ajuda. O pai dele viajava bastante a trabalho e tinha encontrado em Avaré uma loja que tinha várias violas da Del Vecchio pra vender. Ele iria comprar uma, mas queria que eu fosse com eles até Avaré pra ajudar a escolher pois eu já era um “violeiro experiente”. 

Combinamos e fomos pra lá numa tarde. A Casa Musical, propriedade do sr. David Vituri me pareceu o paraíso. Muitos instrumentos, e pasmem, violas para pronta entrega. Nos mostraram logo as três melhores que cabiam no bolso do seu Jaime, pai do Sílvio. 

Quando bati os olhos numa cinturada, com o bojo um pouco mais largo que o normal, meu coração disparou… Acomodei ela nos braços e toquei na melhor viola que até então eu tinha conhecido. Depois experimentei uma outra que acabei descartando por ter sentido inferior e uma terceira, com o corpo um pouco mais clássico e também muito boa. 

Fui sincero quando disse ao Sílvio que as duas, a bojudinha e a clássica me pareceram muito boas e que a decisão caberia ao seu gosto. Tocou mais um pouco em uma delas, depois na outra, conversou com o seo Jaime e se decidiu pela clássica. Voltamos a Botucatu tocando viola no carro.

Em Botucatu, telefonei pra um amigo que queria uma viola e passei pra ele a minha Rei que eu havia reformado. Tomei um ônibus pra Avaré e fui buscar a bojudinha, a viola que me escolheu. No correr dos anos adquiri e uso outros instrumentos mais refinados no dia a dia, mas a velha Del Vecchio ainda me acompanha há quase quarenta anos. 

05/12/2019

As modas, um violão, as contas, mistério e paixão.

Quando menino era comum ir pros sítios ouvindo os programas caipiras na madrugada. As modas contando histórias de boiadas e boiadeiros, do amanhecer na roça, dos romances e das tragédias caipiras. Muitas daquelas músicas passaram a ser minha companhia também durante os dias. Lembro de uma fita cassete Scotch, dourada, escrito a caneta, por fora – modas de viola. Quando rodava vinham meninos da porteira, boiadas cuiabanas, mágoas de boiadeiro e tristezas do jeca entre outras.

Em casa o pai tocava violão, cantava umas modas mas gostava mesmo era das serestas e das músicas da boêmia. Eu ouvia, prestava muita atenção, admirava mas não tinha acesso ao instrumento. O pai tinha um certo ciúme e excessivo cuidado com ele.

Eu tinha uns dez anos de idade quando mudou-se para a rua de casa uma nova família. Não me lembro mais o nome, mas uma das moças que morava na casa dava aulas de violão e lendo o letreiro anunciando as aulas veio a vontade de aprender o instrumento.

No junho daquele ano, por ocasião do meu aniversário, ganhei meu primeiro instrumento, um pequeno Gianinni. E lá fui eu pras aulas!!! Iniciamos um pouco com teoria, partituras – que ainda não entraram muito bem na minha cabeça – e algumas peças instrumentais, mas o que eu queria mesmo era tocar e cantar.

Assim que aprendi os primeiros acordes descobri que as músicas caipiras eram muito fáceis de tocar, com duas ou três posições acompanhava uma infinidade delas. Isso me aproximou ainda mais desse repertório. Acho que a primeira que toquei foi Burro Picaço, que estava também lá na Scotch. Foram dois meses muito produtivos e com algumas poucas sequências aprendidas já me arriscava a entoar um vasto repertório das duplas caipiras.

E foram dois meses apenas. O violão não saía das mãos e os cadernos reclamaram. Com prenúncios de ficar para exame em matemática (naquele tempo ainda não havia recuperação, era exame e ainda tinha a temida segunda época) tive que deixar as aulas e o instrumento também. Foi um final de ano de muita conta e muito estudo para enfrentar o Prof. Godinho no exame final. Acabei me recuperando no exame e concluindo o ano com tranquilidade.

Ainda que o Natal se avizinhasse o maior presente foi a volta do companheiro das cantorias. Violão nas mãos, vieram as férias e descobri a VIGU, uma revistinha que trazia as músicas com as cifras e os acordes. Músicas de todo tipo. Fiquei fã e quando o ano seguinte aportou não voltei mais pras aulas de violão, cuidando desde então de aprender na base da curiosidade e da dedicação.

Mas ainda restava um mistério a decifrar – que instrumento era aquele que acompanhava as músicas caipiras? 
Ouvia no rádio, nos discos e nas fitas mas na televisão a gente não via aquele tipo de música. As duplas que raramente apareciam nos programas usavam apenas violões e as canções que cantavam não tinham nem cheiro e nem gosto de terra. Das modas antigas vinha um som metálico, choroso e vivo, plangente e saudoso. Tentei cordas de aço no violão, mas ainda assim não me trouxeram o som pelo qual precocemente eu já me apaixonava…

27/11/2019

Na ilha, do rio e do brejo…

De 1989 até 1991 eu fui a quase uma centena de festivais levando minha música em Minas, São Paulo e Paraná. Nessas empreitadas musicais conheci um grande número de artistas, compositores, cantores e instrumentistas, muito dos quais se tornaram grandes amigos. 


Era muito comum que músicas e personagens se repetissem a cada evento. O mesmo músico, a mesma canção. Em 1992, com a mudança para Campinas deixei os festivais para buscar novas trilhas musicais, nas quais nunca mais deixaria de seguir. Ainda assim, vez por outra vinha aquela vontade de ir à um festival, ver como estavam os cenários, o que tinha de novo ou mesmo estar numa cidade onde ainda não havia tido oportunidade de levar voz e viola.

Em 1992 estive em Boa Esperança, no festival que hoje se denomina FENAC, Festival Nacional da Canção. Esse foi o início de um grande hiato, que nem mesmo a curiosidade e a saudade superaram. Foram 5 anos sem estar em nenhum evento do gênero.


Em 1997, retornando a Botucatu, bateu a saudade e inscrevi uma canção no Festival de MPB de Ilha Solteira, um evento tradicional mas que ainda não havia participado. Foi uma grande festa e mesmo a adrenalina do palco não impediu minuciosa observação sobre o festival em muitos aspectos e também sobre a Ilha Solteira. A cidade é muito acolhedora, povo bom, o rio encantador!!!


Na noite da segunda eliminatória, eu estava nos fundos do teatro, em pé, assistindo mais uma das concorrentes. Do meu lado um novo amigo puxava assunto, ele tinha um primo que era quase meu vizinho, encontramos amigos em comum e a conversa seguia entre Avaré e Botucatu. De repente, a pergunta: o que é que você está achando do festival. Respondi muito diretamente, com base nas minhas observações – tirando uns velhinhos que tocaram com uma rabeca, o resto tá igual aos outros festivais. Eu realmente havia me encantado com a apresentação dos “velhinhos”. Um baião ritmado, arranjos vocais, violões e viola e a presença de um violino com ares de rabeca deixavam Trem dos Quintais bastante interessante. O Altino – esse era o nome do novo amigo – começou a rir muito. Depois me contou que era ele que estava tocando a “rabeca” com os “velhinhos”. Para encerrar, me disse que não perderia a oportunidade de brincar com eles sobre o fato. Confesso que fiquei apreensivo… Não sabia como poderia ser a reação. Um tempo depois, não me recordo se foi na mesma noite ou no dia seguinte, nos conhecemos. Eles já sabiam tudo e virou uma grande brincadeira. Passamos os dias juntos, almoçando, passeando e em rodas de viola e cantoria, como velhos amigos.

Na semana seguinte nos reunimos em Avaré, depois em Botucatu e assim por diante, numa amizade que é uma jóia a qual lapidamos conforme passa o tempo. Kleber, Flores e Chaná, os 3 do brejo, em alusão aos consagrados 3 do Rio, porém criados nas várzeas do Paranapanema. Chaná viajou fora do combinado a alguns anos.


Sexta passada, o Kleber recebeu o título de cidadão Avareense. Me mandou um convite carinhoso. Eu não podia deixar de ir, e fui. Contei essa história na tribuna, revi fotos de antigos encontros. O Flores também estava lá, Chaná, em memória, e a noite, naquela casa de leis, terminou em violas, cantoria e saudade.